quinta-feira, 31 de julho de 2008

Publicitários x Regulamentação da Publicidade


Recebi este e-mail do professor Ricardo Silveira e estou postando em nosso blogue para uma boa reflexão sobre a questão da regulamentação da publicidade.


Leiam.


Ivana Bentes


Custou, mas apareceu, o "manifesto" dos Publicitários, se dizendo ameaçados pela tentativa de regulamentação da publicidade por parte dos órgãos de defesa do consumidor e da saúde pública. A retórica e estratégia são conhecidas: qualquer tentativa do Estado de regular a mídia, seja a faixa etária indicativa de programas na TV, seja a veiculação de publicidade de cigarros, bebida alcoólica, gordura trans ou uma cota de filmes brasileiros na TV, qualquer movimento social que ameace os lucros exorbitantes da publicidade e a liberdade de empresa, são considerados "censura" e "ataque a liberdadede expressão".


Em nova embalagem, a velha retórica. De forma grosseira, as emissoras de TV já tinham veiculado anúncio dizendo que o governo queria "tirar o direito do telespectador de escolher seus programas", diante da proposta em votação no Congresso de uma cota para conteúdo brasileiro nas TVs a cabo. Como se os pacotes com enlatados e programas comprados pelas emissoras tivessem algum grau de "escolha" e participação do espectador, obrigado ainda a levar no pacotão que compra uma porcentagem de lixo cultural adicional.


Mas o manifesto dos publicitários vai mais longe. Faz uma inversão ainda mais espetacular ao esvaziar totalmente o lugar de poder que está nas mãos (o zapping é um deles) da audiência e do público. O verdadeiro "produto" que é "vendido" para os anunciantes a peso de ouro e que sequer é mencionado no texto.O manifesto tenta nos convencer do contrário.



Não, não é a audiência eo espectador, o público, e a sociedade, nós, que sustentamos o mercado e a mídia e sim "a publicidade" em si. São eles, os mediadores, ospublicitários, diz o manifesto, os verdadeiros protagonistas dessa história.Transformados em arautos da democracia e da "livre expressão", os publicitários defendem no seu manifesto que "é a publicidade que viabiliza do ponto de vista financeiro a liberdade de imprensa e a difusão de cultura e entretenimento para toda a população. É a publicidade que torna possível a existência de milhares de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, assim como de outras expressões da mídia."


(!!!)Ou seja, para os publicitários estamos num cenário em que os mediadores são os protagonistas todo-poderosos da sociedade! Para eles, é a publicidade o esteio da democracia e não o contrário, a radicalização da democracia que vai democratizar inclusive a publicidade corporativa! Que vende quase qualquer coisa, que cria necessidades, fidelidades, hábitos e valores, estilos mais ou menos predadores...


É essa publicidade que quer se "auto-regulamentar" ?Os publicitários escamoteiam que é o espectador, a audiência, opúblico, a sociedade que produz valor simbólico e real, conteúdos, opiniões, produtos, mídia, inclusive de graça e de forma colaborativa, hoje, com as novas formas de produção e difusão da cultura livre pós-internet, produtos que podem ser acessados diretamente, sem a mediação da publicidade tradicional, inclusive!O manifesto dos publicitários não discute o que poderia ser uma publicidade democrática ou com objetivos "públicos" e não simples mente predadora ou visando o lucro imediato.


Também sequer cogitam a emergência de uma série de movimentos e ativistas que batalham no campo do consumo. Exigindo rótulos explicativos e indicativos dos venenos que ingerimos e que a publicidade vende sob um lindo design e letras miúdas.


Movimentos que exigem saber a origem da mão de obra de certos produtos, a forma de produção, a origem natural ou modificada, transgênica ou não, com ou sem agrotóxicos, etc. Ou seja, a liberdadede sabermos o que afinal ingerimos, calçamos, vestimos, lemos, vemos, consumimos.



Movimentos que mostram que o preço embutido da publicidade encarece os produtos de forma exorbitante! O que também não é dito no manifesto, ou seja, que somos nós que pagamos a própria publicidade que consumimos. Incutindo o medo. Com décadas de atraso em relação a outros países, e apesar do lobby poderoso, a propaganda de cigarros foi proibida na mídia brasileira. O que não levou a falência nem as emissoras de TV e jornais nem as fábricas de cigarros (que passaram a apoiar Festivas de música e produtos culturais).


O fim da propaganda de cigarro também não levou a uma diminuição da"liberdade de expressão" de ninguém, quem quer fuma, mas diminuiu-se sim os riscos de câncer de pulmão em nível planetário. Agora a batalha é proibir a publicidade de bebidas alcoólicas, sendo oalcoolismo uma epidemia no Brasil de ricos e pobres. Ninguém deixará de tomar sua cerveja, cachaça, vinho, whisky, o que for, mas sem dúvida o consumo será balizado por outras forças que não simplesmenteo bombardeamento diário da publicidade ostensiva e reiterativa.


Ao neutralizarem a força do consumidor e se colocarem na "origem" da liberdade de expressão e como fonte primordial de sustentação da mídia democrática, os publicitários fazem uma peça de marketing ruim e corporativa, distorcida. Esquecem, que o telespectador e a audiência, o público, o"prossumidor" (o consumidor que se tornou produtor e publicista) está mobilizado e é a nova forca de transformação no capitalismo midiático e imaterial.


A Mídia somos nós, a liberdade de expressão não tem nada a ver compropaganda de cerveja ou de gordura trans! Mesmo parados diante da TVestamos trabalhando para a audiência. O poder de consumo, de produção,criação e difusão está em toda a sociedade. É a sociedade que deve seremponderada! Ao invés da defesa incondicional da "perenidade" domercado publicitário, principalmente num capitalismo da abundância eda emergência da economia da gratuidade.O estágio atual é de politização do consumo! Não precisamos demanifesto de publicitários defendendo sua corporação e propondo"adequar" os Cursos de Comunicação as suas exigências, adestrando osjovens a um complexo industrial/publicitá rio em crise.


Quandoprecisamos de uma nova publicidade, de democratização, colaborativa efeita pelo próprio consumidor.O que falta são mais movimentos de consumidores, de telespectadoresque pudessem exigir, opinar, protestar e pressionar os fabricantes deprodutos e os publicitários. Algo que o anonimato e a impessoalidadeda audiência não estimulam.Como dar credibilidade a um manifesto que apaga o consumidor comofonte de poder e valor e colocar no seu lugar...os publicitários, ouque demoniza o Estado que quer regular e restringir certaspropagandas?


O Manifesto dos Publicitários se torna uma jogada de marketing ruim, pois:a.. Para os publicitários, não existe comunicação sem publicidade!.. Para os publicitários, a proibição de anunciar bebida alcoólica vai levar a mídia a falência!c.. Para os publicitários, sem a publicidade não existe "liberdade deexpressão"!.. Para os publicitários, para não "desaquecer" o mercado não se podeintervir nem restringir certos anúncios, como o de "bebidasalcoólicas, remédios, alimentos, refrigerantes, automóveis, produtospara crianças, entre outras".


Seria o equivalente a dizer que para não "desaquecer" o mercado de drogas não se pode intervir no sistema de venda, de tráfico de armas ede corrupção existente. Pois esse é um mercado aquecidíssimo e que movimenta zilhões, sem publicidade!"Seria demais pedir a um anunciante que proponha o desestímulo aoconsumo", nas palavras de Gilberto Leifert, presidente do Conar, aovender o texto, ou melhor, a publicidade dos publicitários.


Perfeito, é essa a lógica do Manifesto!"O objetivo central é sempre o fortalecimento da indústria dacomunicação", completa o texto, ou seja, a manutenção de um mercadopublicitário "perene" a qualquer custo. A mesma lógica"desenvolvimentista " que ainda é dominante na política, apesar deultrapassada e discutível.Os publicitários querem criar uma confusão entre as liberdadesindividuais, o "risco escolhido" (consumir, viver e morrer, ter prazerfumando cigarro, ingerindo gordura trans, bebendo ou usando drogasleves e pesadas, por vontade própria), a "liberdade de expressão" (quetem a ver com a possibilidade da pluralidade e da autonomia) ecapturam a defesa legítima dessas liberdades para a sua defesa de"liberdade comercial", mesmo que essa liberdade das empresas afronte asaúde pública e a construção do comum.


É muito preocupante que os publicitários transformem a Anvisa (AgênciaNacional de Vigilância Sanitária) e o Congresso em inimigos públicosnúmero um dos publicitários! Ou seja, o que está sendo descartado sãoas questões de saúde pública! E a construção do interesse "comum".Estranhamente os publicitários não falam em democratizar as verbaspúblicas destinadas as suas empresas e que são repartidas entre unspoucos veículos de comunicação. Essa repartição pouco democrática dobolo nem sequer é mencionada. Ou seja, o Estado só incomoda quandoquer regular para todos, não quando privilegia poucos.


O manifesto dos publicitários que ganhou ampla repercussão na própria TV, em horário nobre, teve dois garotos propaganda de peso, um Civitae um Marinho, donos de corporações de mídia e TV, com seus ternos cinzas, voz monocórdia e rosto descansado, adentraram a nossa casa, pela concessão pública que lhes demos, para fazer a sua própria publicidade e anunciar essa estranha contrafação. (IB)


Leia mais




Internautas brasileiros podem ser remunerados pelo YouTube para postar vídeos


Na última quarta-feira (30), durante o Campus Party em Valência, Espanha, o responsável de conteúdos do YouTube no país europeu, Javier Alonso, anunciou que irá estender o Programa de Parcerias a internautas brasileiros e espanóis, que poderão ser remunerados pelo site, caso postem vídeos regularmente e consigam audiências consideráveis, atraindo publicidade.


Para participar, o usuário deverá postar vídeos - pelo menos uma vez por semana - que devem ocupar os primeiros lugares na classificação dos mais vistos ou que contenham "muitos assinantes".


O conteúdo do vídeo, no entanto, deve ser integralmente produzido pelo autor, ou seja, não se pode utilizar música ou imagens de outros artistas, a não ser que disponha dos direitos autorais.


Nem o percentual nem o valor que os internautas receberão foram informados pelo YouTube, mas Alonso ressaltou que estes "recebem mais da metade" do que o anunciante paga, e que os autores de vídeos mais vistos do mundo já receberam "milhares de dólares ao mês".


Fonte: Portal Imprensa

quarta-feira, 30 de julho de 2008

O jornal formando leitores críticos


Na última semana, em Campinas, aconteceu o 4° Seminário Nacional O Professor e a leitura do Jornal, promovido entre outros parceiros pela Associação de Leitura do Brasil (ALB) e Universidade Estadual de Campinas. O seminário teve como tema "A interface do jornal com outras mídias na formação básica e continuada dos professores" e conseguiu criar espaços de reflexão importante sobre o papel de diferentes meios de comunicação na escola.


Vale notar que o foco deste encontro é mesmo o professor da educação básica fato que o torna mais relevante para nós jornalistas e professores de jornalismo, pois constata que o trabalho jornalístico além de informar, também pode ser usado para educar. Que o jornal educa não resta dúvidas, é evidente que a circulação de informações promovida pelos meios de comunicação desencadeia uma circulação de saberes que estimula a educação, mas ser levado para sala de aula e ser incluído no processo de ensino-aprendizagem é um fato que reforça seu papel educativo.


A grande questão que ainda sugere muitos debates é como fazer uso deste jornal, contribuindo com os objetivos educativos, sem perder de vista que ele é um lugar em que as disputas ideológicas se materializam. Neste aspecto o seminário deu algumas pistas: não há formulas prontas para o uso de jornal em sala de aula, a escolha de como utilizá-lo passa pela experiência do professor, pela realidade do aluno e da escola e do objetivo educativo que está em jogo.


Contudo, sugiro uma regra que deveria ser tomada como um princípio do uso do jornal em sala de aula: a pluralidade de veículos durante as atividades educativas. Isto é, se não há formulas prontas também é preciso ter em mente que não há o melhor jornal a ser oferecido e o melhor para os alunos é a variedade, a possibilidade de contato com diferentes fontes, formatos e visões de mundo. Infelizmente, os programas atuais de leitura de jornal na escola, ligados a jornais específicos, acabam ocupando os espaços escolares com seus veículos e, em raras exceções, garantem essa pluralidade.


O exercício de fato da leitura e mais ainda da leitura crítica dos meios de comunicação só é possível quando o aluno confronta noticiários, compara abordagens e percebe que a escrita, muitas vezes, pode guardar a visão de mundo de quem escreve. Saber disso não diminui o fato, a notícia e nem mesmo o escritor, apenas garante ao leitor a possibilidade de compreender suas dimensões e formar sua opinião.


Logo, fazer uso do jornal em sala de aula deve significar em primeiro lugar um estimulo à pluralidade e à democracia e para isso esta prática precisa estar desvinculada dos interesses particulares das empresas jornalísticas. Formar leitor crítico e não formar leitor de "tal" jornal, este tem que ser a preocupação de quem escolhe este suporte como aliado em suas aulas.


Kátia Zanvettor é jornalista e doutoranda pelo programa de Pós-Graduação em Educação da USP. É também professora do curso de Pós-graduação em Comunicação do UniFOA

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Comentário do dia: O crime organizado quer calar a imprensa


Não é de hoje que comento sobre a tentativa do crime organizado em calar a boca da imprensa brasileira em nosso blogue. É inadmissível que um país democrático como o Brasil que se aceite determinadas imposições de marginais que traficam drogas e massacram com violência a nossa sociedade. A imprensa continua o seu trabalho de denúncia. Não para e não deve parar. Porém, o governo não faz a sua parte e temos que continuar a mercê desses bandidos.


Vou citar um caso que ocorreu este fim de semana. Jornalistas e fotógrafos de O Globo, O Dia e Jornal do Brasil foram ameaçados por traficantes da comunidade Vila Cruzeiro, na Penha, zona norte da cidade do Rio de Janeiro (RJ), enquanto acompanhavam a campanha do candidato à Prefeitura Marcelo Crivella (PRB), que fazia corpo-a-corpo com eleitores da região.


Os bandidos - um deles armado com um fuzil - obrigaram os profissionais dos veículos a apagarem as fotos que haviam sido realizadas no local, visto que apareciam em algumas delas onde o candidato tentava cumprimentá-los. As imagens foram deletadas, mas recuperadas depois. E aí? Comente.