quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A TV Digital no telefone 70 anos depois


A julgar pelos números divulgados pelo Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre- SBTVD, em torno de 150 mil brasileiros estarão assistindo televisão até o final do ano pelo telefone celular, Iphone ou similares. O número pode ser menor já que a estimativa refere-se a plataformas móveis, nesse caso incluídos aparelhos de TV portáteis, em todo caso uma referência numérica. O fato é que um ano após a implantação do sistema de TV digital no Brasil, realiza-se o sonho de nossos antepassados, os técnicos que idealizaram a telinha e já em 1935 com o avanço dos receptores de alta definição de imagem para a época, 120 e 240 linhas, perguntavam-se: qual a plataforma ideal para se assistir a TV? O rádio ou o telefone?
"O articulista A. Castellani em matéria publicada na revista "Sapere" de Milão indagava:" Poderemos ver ao próprio aparelho telefônico a imagem viva de quem está falando e ao mesmo tempo sermos vistos pelo interlocutor? Poder-se-á assistir na própria casa a qualquer acontecimento que tenha lugar na própria cidade ou algures? ". Mais adiante define o que considera a melhor opção: "O escopo da televisão é difundir pelo rádio, imagens vivas próprias de uma cena teatral... O fim principal é, portanto bem diferente do da aplicação da televisão ao telefone. O que se verificou com o telefone (isto é, teve-se primeiro o telefone e depois a radiotelefonia) não se pode verificar com a televisão por motivos que logo veremos".
Catelani conclui que a plataforma da TV será o rádio acoplado a um aparelho com a válvula catódica e assim descreve o equipamento para uma eventual recepção à domicílio: "um radio-receptor especial de onda ultra-curta para captar as ondas que transmitem as imagens e um rádio-receptor normal para captar as ondas que transmitem os sons e, portanto, poder acionar o respectivo altofalante". Do outro lado do oceano, o editorialista do "Popular Mechanics" de Chicago imaginava uma tela minúscula de no máximo 5 x 7 polegadas, ou seja, um pouco maior do que a tela do Iphone, tamanho então considerado ideal para se ter uma imagem de razoável definição.
No ano seguinte (1936) o técnico Augusto Hogony na revista "Sapere" comparava a tela de TV com a do cinema e observava: "O que importa é o ângulo sob o qual é visto o quadro. Nem todos os construtores compreendem a importância psicológica, com quadros tão pequenos, de eliminar do campo visual tudo que possa distrair a atenção e lembrar as verdadeiras dimensões da imagem". Hogony calculava em três anos o tempo para se implantar a TV na Alemanha, a depender do alto custo dos transmissores e cabos, investimento muito elevado para uma cobertura em torno de 70 kilometros, mas lamentava a falta de um padrão definido de monitor. Não diz no seu artigo, mas referia-se as experiências realizadas simultaneamente e sem interação entre sim, nos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha.
O fato é que a iminência e realidade da II Guerra Mundial adiaram os planos desses paises. A Alemanha fez cobertura fechada das Olimpíadas de Berlim, Os engenheiros da Baird na Inglaterra promoveram experiências em eventos públicos, enquanto os americanos realizavam transmissões experimentais no seu território e também em Cuba e no México. Com o fim do conflito e a ruína dos paises Europeus, os Estados Unidos definiram o padrão de TV, o tipo de monitor, a plataforma e até a infra-estrutura com a RCA fabricando e vendendo transmissores e antenas pelo mundo afora. Definiram também os conteúdos, a partir da indústria do cinema adequada a um modelo de seriados, os famosos enlatados, o nome uma referência à embalagem em que vinham acondicionados os rolos.
Os nossos antepassados imaginaram a TV como um complemento do rádio e do telefone. Bobinhos eles, mas estavam certos.


Nelson Váron Cadena é colombiano, residente em Salvador desde a década de 70. Autodidata, realiza atualmente o curso de jornalismo na Unibahia.
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