sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Artigo da semana: Caso de polícia, essa polícia


Lindemberg Alves Fernandes, 22, não tinha antecedentes criminais. Mas tinha um revólver, que usou a queima-roupa para matar a ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, 15, com um tiro na cabeça e para acertar a amiga de ambos Nayara Rodrigues da Silva, com outro em pleno rosto.
Roberto Costa Jr., 28, era motorista da família Sendas e filho do motorista pessoal e funcionário de quase três décadas do empresário Arthur Antônio Sendas, 73. Costa Jr. também não tinha antecedentes criminais. Mas, como Lindemberg, tinha um revólver e não titubeou em matar o patrão dele e do pai com um tiro no rosto.
Daniel Pereira de Souza, 22, tinha sido detido por tráfico de drogas e andava armado. Desde que saiu da cadeia, três meses atrás, ele insistia que queria retomar o relacionamento com Camila Silva Araújo, 16, com quem tinha um filho de um ano e meio. Camila foi irredutível. Recebeu um tiro na cabeça e morreu.
Você não acha que foi tudo muito fácil? Lindemberg, Roberto e Daniel foram ali na esquina e compraram suas armas, entraram nas casas de suas vítimas e brincaram com a vida e a morte. Assim, determinarem o destino de famílias inteiras.
Um fator decisivo dessas tragédias é, evidentemente, o perfil frio e descontrolado dos três assassinos. Mas um outro, que não pode passar despercebido, é a facilidade com que qualquer um pode comprar armas neste país, a qualquer hora, por qualquer motivo, a qualquer preço. Ninguém sabe, ninguém viu.
Lindemberg, Roberto e Daniel, entre milhares de outros, são os assassinos que puxaram o gatilho. Mas ninguém pergunta pelos assassinos que lhes venderam as armas. Quem são? Onde estão? Quem serão suas próximas vítimas?
Esse é um típico caso de polícia. Mas com essa polícia que nós temos por aqui...


Eliane Cantanhêde é colunista da Folha de São Paulo
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