quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Porque Gugu cai, Tom cresce e o domingo fica cada vez mais infame na TV







Foi bem num domingo que a minha TV a cabo saiu do ar. Sem mais nem menos, puf! Adeus séries, filmes, documentários, campeonato europeu. Como não havia para quem reclamar, o jeito foi dar um pulo na locadora para pegar uma boa "fita". Chegando lá, só velharia. Os bons filmes disponíveis estavam todos colocados em uma estante separada, reservada a um certo Blue Ray.
A moça do caixa foi logo explicando: "Os DVD´s estão com os dias contados, a onda agora é o Blue Ray. Ele tem qualidade superior ao atual DVD. Mas o aparelho ainda custa uns R$ 3 mil". De quebra, ela ainda contou que o Blue Ray tem esse nome porque o feixe de laser para ler e gravar os dados tem coloração azul (blue). No DVD convencional, o laser é vermelho. "Daqui a alguns meses, não vai mais haver DVD convencional aqui na locadora". Assustador. Até outro dia, eu pagava multa quando esquecia de "rebobinar".
Todo esse preâmbulo é para explicar como nasceu a idéia de acompanhar um domingo inteiro de programação na TV aberta. Nas últimas semanas, as colunas televisivas dos jornais e revistas de fofoca ficaram especialmente empolgadas com o avanço da Record e seu "Show do Tom" sobre a audiência supostamente blindada do "Faustão". Falou-se muito, ainda, sobre a queda vertiginosa da audiência do apresentador Gugu Liberato, do SBT. E sobre a crise do excesso de merchandising no "Pânico na TV".
Pior que um domingo convencional é um domingo de fim de ano. O único jogo de futebol disponível em toda programação do dia foi transmitido pela Band: Corinthians X Amigos do Daniel. Não deu para saber de que Corinthians se tratava, mas pelo tamanho das barrigas não era o time oficial que disputará a Série B. Já o outro time pertencia ao cantor sertanejo Daniel. A locução era profissional, com direito a Luciano do Vale. Mas o jogo, bizarro. Parecia pelada de fim de ano da firma.
Zap, zap. TV Gazeta. Um casal animado, sarado e sorridente entrevista uma modelo com roupas sumárias. O GC (gerador de caracteres, para os não iniciados) ajuda a esclarecer o teor da atração: "Samille e Rogerinho entrevistam Karina com vestido cortado". Esse foi apenas um dos trechos do "Dolly Show". Na seqüência, outra modelo aparece tomando banho e rebolando de biquini, ao som da música "Dolly, tome guaraná Dolly. Tome Guaraná, tome guaraná, Dolly. Aprovado...O sabor brasileiro". O GC, sempre esclarecedor, informa: " Bananinha na ducha".
Zap, zap. Rede Vida. Um religioso com a bíblia na mão explica procedimentos bancários enquanto o GC em letras garrafais avisa "Débito automático". Sem comentários. Zap, zap. RedeTV!. Como ainda é cedo para o "Pânico", o jeito é dar uma conferida no "Late Show", a única atração canina da TV aberta brasileira
Em frente a uma bandeira do arco-íris uma loira falante e teatral faz um discurso sobre a importância dos gays. Ela está em um "Pet Shop" gay, que foi criado para "estimular a diversidade". Lá pelo meio do programa, surge um poodle com sunga de couro e óculos escuros. No comercial, a RedeTV! apresenta o seu clipe de fim de ano, onde todo o casting canta junto o refrão "Esse amor é azul, como o mar azul".
A tarde avança e, finalmente, chega a hora do bom combate. Enquanto Fausto Silva entra no ar na Globo, um sósia com a voz idêntica surge na Record. Trata-se de Fala Silva, apresentador do "Domingão do Falão". O estúdio, as dançarinas, as roupas. Tudo é idêntico ao original. A primeira atração de "Fala Silva" é anunciada: "Com vocês, o maior humorista do Brasil, Tom Cavalcanti...". Depois de meia dúzias de piada infames, é anunciada a segunda atração do dia: "Sandy e Junior". Mas quem aparece é o Tiririca (de Junior) e Tom Cavalcanti (de Sandy).
Zap. Na Globo, um ator famoso vestido de bombeiro acompanha uma operação de verdade da corporação, onde é "registrado um óbito". É visível o constrangimento do ator fantasiado entre os bombeiros de verdade na hora do resgate de um acidente de carro.
Zap. No canal "Shop Tour" um homem de terno fala sobre "os panetones lindos da Ofner". Credo. Zap.
Enfim, Gugu Liberato dá o ar da graça no SBT. Não é difícil entender porque ele vem caindo na audiência. Os primeiros vinte minutos são todos dedicados ao merchandising testemunhal. O pior ainda estava por vir. Vinhetas e comerciais inteiros são exibidos com a presença do apresentador em uma janela no canto da tela, fazendo cara de aprovação. Banco Panamericano, Telesena, Carnê do Baú. Na primeira hora de programa, o SBT mais parecia o "Shop Tour". Quando, enfim, começa de fato o programa, a primeira atração é uma extensa apresentação de nomes de famosos que fazem aniversário naquele dia. Tudo bem simples, no estilo "TV Fama", da RedeTV!.
Zap. Começa o "Pânico". Clipe do Guaraná Dolly (Dolly, tome guaraná Dolly. Tome guaraná, tome guaraná...), Sabrina Sato em poses sensuais em cima de uma moto Suzuki, Surita toma uma Kaiser...Merchan, merchan, merchan e mais merchan. Zap. Volto para a "Shop Tour" em busca de um panetone baratinho. Que saudade da segunda feira...






Pedro Venceslau, 31, é jornalista, editor-executivo da Revista IMPRENSA e apresentador do programa "IMPRENSA na TV", na ALLTV
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